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Bico de silicone na amamentação: quando usar, riscos e como tirar

O que as pesquisas mostram sobre o protetor de mamilo, em quais situações ele pode ajudar e como fazer a retirada sem traumas para você e para o bebê.

O bico de silicone (protetor de mamilo) é um recurso temporário para situações específicas, como mamilo plano ou curto e dificuldade de pega nos primeiros dias. Como pode reduzir a quantidade de leite que o bebê retira, use apenas com avaliação profissional, acompanhe o ganho de peso e tenha um plano para retirá-lo aos poucos.

O bico de silicone na amamentação divide opiniões: para algumas mães ele foi a ponte que salvou os primeiros dias, para outras virou uma dependência difícil de largar. Os dois relatos são verdadeiros, e a diferença quase sempre está em por que, como e por quanto tempo ele foi usado. Este guia explica o que as pesquisas mostram, quando o protetor pode ajudar, quais os riscos e como tirar o bico de silicone sem traumas.

Resumo em 5 pontos

  • O bico de silicone não é item de enxoval nem solução de rotina: é um recurso pontual.
  • Pode ajudar em casos selecionados, como mamilo plano ou curto, pega difícil nos primeiros dias e alguns bebês prematuros.
  • Estudos mostram que ele pode diminuir a transferência de leite, por isso o peso do bebê precisa ser acompanhado.
  • O melhor resultado aparece quando o uso vem junto com orientação e acompanhamento de um profissional de amamentação.
  • A retirada deve ser planejada desde o primeiro dia de uso, de forma gradual e sem pressa.

O que é o bico de silicone?

O bico de silicone, também chamado de protetor de mamilo, intermediário ou mamilo de silicone, é uma peça fina e flexível em formato de chapéu que se coloca sobre o mamilo durante a mamada. O bebê suga através dele, e o leite passa por pequenos furos na ponta.

Ele é diferente da concha de amamentação (usada entre as mamadas para proteger o mamilo do atrito com a roupa) e diferente do bico de mamadeira. No Brasil, os protetores de mamilo estão na mesma lista de mamadeiras, bicos e chupetas cuja promoção comercial é proibida pela Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes (NBCAL), transformada na Lei nº 11.265/2006 [1]. Essa regra existe justamente porque esses produtos podem interferir na amamentação quando usados sem necessidade.

Quando o bico de silicone pode ajudar?

Uma revisão da literatura publicada em 2015 reuniu as situações em que o protetor costuma ser indicado: mamilos planos, bebê que não consegue fazer uma pega eficaz nos primeiros dois dias, mamilos doloridos, prematuridade, excesso de produção e transição da mamadeira para o peito [2]. Na prática, isso se traduz em alguns cenários.

Mamilo plano, curto ou invertido

Quando o mamilo não se projeta o suficiente, alguns bebês têm dificuldade de encontrar e manter a pega. Um ensaio clínico randomizado com mães que tinham alterações no mamilo mostrou que o grupo que usou o protetor teve mais amamentação exclusiva aos 2 e 3 meses, e o benefício foi mais claro entre as mães com mamilo curto [3]. Antes do protetor, porém, vale tentar técnicas de pega e posição, que resolvem boa parte dos casos. Explicamos essas técnicas no artigo sobre bebê que não pega o peito.

Pega difícil nos primeiros dias

Nos primeiros dias, bebês sonolentos, mamas muito cheias ou uma aréola endurecida podem dificultar a pega. Nesses casos, o protetor às vezes funciona como uma ponte curta enquanto a dupla aprende. O ponto de atenção é não deixar a ponte virar o caminho definitivo.

Bebê prematuro

Em bebês prematuros, os resultados são diferentes. Um dos estudos citados na revisão de 2015 mostrou que prematuros retiraram mais leite com o protetor do que sem ele [2]. Ainda assim, cada caso de prematuridade precisa de avaliação individual, em conjunto com a equipe que acompanha o bebê.

Mamilo muito machucado

Algumas mães usam o protetor quando a dor da fissura torna a mamada insuportável. Ele pode trazer alívio, mas não trata a causa: se a lesão veio de uma pega inadequada, o machucado tende a voltar quando o protetor sai. Veja no guia de fissura mamária como tratar a lesão e corrigir a origem do problema.

Bico de silicone faz mal? O que dizem os estudos

O bico de silicone não "faz mal" por si só, mas também não é inofensivo. A pergunta certa é: em quais condições os benefícios superam os riscos? As pesquisas disponíveis ajudam a responder, com uma ressalva importante: ainda são poucas e com qualidade variável.

Pode reduzir a quantidade de leite que o bebê retira

Estudos com bebês nascidos a termo mediram menos leite transferido durante a mamada com o protetor. Em um deles, um modelo antigo reduziu a transferência em 58%, e um protetor fino de látex reduziu em 22% [2]. Esses números vêm de estudos antigos, feitos com modelos diferentes dos atuais, mas o alerta continua valendo: se o bebê retira menos leite, a mama é menos estimulada e a produção pode cair com o tempo.

O benefício pode não se manter a longo prazo

No ensaio clínico randomizado com mães com alterações no mamilo, a vantagem do protetor na amamentação exclusiva aos 2 e 3 meses não se manteve aos 6 meses. E, quando se contou qualquer amamentação (exclusiva ou não) aos 6 meses, a taxa foi menor no grupo que usou o protetor: 53,0% contra 63,6% [3]. Os próprios autores concluem que o protetor deve ser um recurso temporário e direcionado, integrado a orientação estruturada e acompanhamento.

A evidência ainda é limitada

Uma revisão de 2010 que analisou 13 estudos concluiu que as pesquisas publicadas até então não forneciam evidência de segurança ou eficácia do uso contemporâneo do protetor [4]. Isso não significa que ele nunca funcione. Significa que a decisão precisa ser individual, e não uma recomendação genérica para todas as mães.

Na prática: se alguém sugerir o bico de silicone para você, pergunte qual problema ele vai resolver, por quanto tempo deve ser usado e quem vai acompanhar o peso do bebê e a retirada. Se não houver resposta para essas três perguntas, vale buscar uma segunda avaliação.

Como usar o bico de silicone com segurança?

Se, depois de avaliar a mamada, o protetor for mesmo a melhor opção naquele momento, alguns cuidados reduzem os riscos:

  • Tamanho certo: o protetor precisa acomodar o mamilo sem apertar nem sobrar demais. Tamanho errado pode machucar e atrapalhar a saída do leite.
  • Colocação: umedeça a borda com um pouco de água morna ou leite para aderir melhor e posicione o centro sobre o mamilo, com a aba bem assentada na aréola.
  • Pega profunda mesmo com o protetor: o bebê deve abocanhar a base do protetor, e não só a ponta. Os sinais de boa pega continuam valendo: queixo encostado na mama e lábios virados para fora.
  • Higiene: lave o protetor após cada uso com água e sabão neutro e siga as orientações do fabricante para esterilização.
  • Estímulo extra, quando indicado: em alguns casos, a profissional pode sugerir ordenha após algumas mamadas para manter a produção enquanto o protetor estiver em uso.

Como saber se o bebê está mamando o suficiente com o protetor?

Como o protetor pode reduzir a transferência de leite, observar se o bebê está se alimentando bem é parte obrigatória do uso. Alguns sinais ajudam no dia a dia:

  • Você ouve ou vê o bebê engolindo durante a mamada, e não apenas sugando.
  • Depois de mamar, o bebê parece satisfeito e a mama fica mais macia.
  • Há leite dentro do protetor ao final da mamada.
  • O bebê faz xixi e cocô com regularidade.

Nenhum desses sinais substitui a pesagem com o pediatra, que é a forma mais confiável de saber se o bebê está ganhando peso como esperado. Se houver dúvida, peça uma reavaliação logo, sem esperar a próxima consulta de rotina.

Como tirar o bico de silicone? Passo a passo

Nos estudos reunidos pela revisão de 2015, as mães deixaram de usar o protetor, em média, cerca de 3 semanas após começar, muitas vezes porque a amamentação melhorou e ele deixou de ser necessário [2]. Cada dupla tem seu ritmo, mas estas estratégias costumam ajudar:

1. Escolha o momento certo

Tente sem o protetor quando o bebê estiver calmo e com pouca fome, por exemplo logo ao acordar, ainda sonolento. Bebê com muita fome tem menos paciência para aprender.

2. Comece com o protetor e retire no meio da mamada

Deixe o bebê iniciar com o protetor e, quando o leite já estiver fluindo e ele estiver mais tranquilo, retire com cuidado e ofereça o peito diretamente.

3. Use o contato pele a pele

Momentos de pele a pele, com o bebê só de fralda sobre o seu colo, estimulam os reflexos de busca e facilitam tentativas espontâneas de pega.

4. Deixe o mamilo mais projetado antes de oferecer

Uma rápida ordenha manual ou alguns minutos de extração antes da mamada podem deixar o mamilo mais saliente e a aréola mais macia, o que facilita a pega sem o protetor.

5. Não transforme a mamada em disputa

Se o bebê chorar ou se irritar, volte ao protetor naquela mamada e tente de novo mais tarde. Forçar a retirada pode criar aversão ao peito. Pequenos avanços ao longo de vários dias contam muito.

Existem alternativas ao bico de silicone?

Muitas vezes, sim. Dependendo da causa da dificuldade, as alternativas incluem ajustes de posição e de pega, ordenha antes da mamada para amolecer a aréola, técnicas para projetar o mamilo e tratamento da fissura. A Organização Mundial da Saúde inclui entre os Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno orientar as mães sobre o uso e os riscos de mamadeiras, bicos e chupetas [5], e uma avaliação individual é o que define se o protetor é realmente necessário.

Quando procurar ajuda profissional?

Procure uma avaliação se:

  • Alguém indicou o protetor e você não sabe por quanto tempo deve usá-lo.
  • O bebê só aceita mamar com o protetor e as tentativas de retirada não evoluem.
  • Há dúvida sobre o ganho de peso, ou o bebê parece insatisfeito depois das mamadas.
  • A dor continua mesmo com o protetor, ou o mamilo segue machucado.
  • A mama fica cheia, dura ou dolorida com frequência.

Na consultoria de amamentação, a Dra. Lucia Mello observa uma mamada completa, avalia se o protetor é realmente necessário e, quando ele já está em uso, monta um plano de retirada gradual. O atendimento é domiciliar em São Paulo e Grande São Paulo e online para todo o Brasil.

Perguntas frequentes

O bico de silicone diminui o leite?

Pode diminuir. Estudos mostram que o protetor pode reduzir a quantidade de leite que o bebê retira e, com menos estímulo, a produção tende a cair. Por isso o uso deve ser acompanhado, com atenção ao ganho de peso do bebê.

Por quanto tempo posso usar o bico de silicone?

Pelo menor tempo possível. É um recurso temporário, e o plano de retirada deve começar junto com o uso. Nos estudos revisados, as mães deixaram de usar o protetor em média cerca de 3 semanas após começar.

Meu bebê só mama com o bico de silicone. O que fazer?

Faça tentativas sem o protetor quando o bebê estiver calmo e sonolento, retire o protetor no meio da mamada e use o contato pele a pele. Se não houver evolução em alguns dias, procure uma consultora de amamentação.

O bico de silicone ajuda com mamilo plano ou invertido?

Em alguns casos, sim. Um ensaio clínico mostrou benefício temporário para mães com mamilo curto quando o uso veio com orientação e acompanhamento. Antes, vale tentar técnicas de pega e de projeção do mamilo.

Posso usar o bico de silicone para tratar a fissura?

Ele pode aliviar a dor por um tempo, mas não trata a causa da fissura, que quase sempre é a pega. Sem corrigir a pega, a lesão tende a voltar quando o protetor sai.

Glossário

  • Protetor de mamilo: nome técnico do bico de silicone, a peça colocada sobre o mamilo durante a mamada.
  • Pega: a forma como o bebê abocanha a mama. Na pega adequada, ele abocanha o mamilo e boa parte da aréola.
  • Transferência de leite: a quantidade de leite que o bebê efetivamente retira da mama durante a mamada.
  • Mamilo plano: mamilo que se projeta pouco para fora da aréola, mesmo quando estimulado.
  • NBCAL: Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes, que restringe a promoção de fórmulas, mamadeiras, bicos, chupetas e protetores de mamilo.

Referências

  1. Ministério da Saúde. NBCAL: Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras. Lista protetores de mamilo entre os produtos sem permissão de promoção comercial.
  2. Chow S, Chow R, Popovic M, et al. The Use of Nipple Shields: A Review. Frontiers in Public Health, 2015. Indicações, redução da transferência de leite em bebês a termo, resultados em prematuros e tempo médio de uso.
  3. Effect of Nipple Shield Use on Exclusive Breastfeeding up to 6 Months in Mothers with Nipple Abnormalities: A Randomized Controlled Trial. International Journal of Women's Health, 2026. Benefício aos 2 e 3 meses, sem manutenção aos 6 meses.
  4. McKechnie AC, Eglash A. Nipple shields: a review of the literature. Breastfeeding Medicine, 2010. Revisão de 13 estudos.
  5. Organização Mundial da Saúde. Ten steps to successful breastfeeding. Passo 9: orientar as mães sobre o uso e os riscos de mamadeiras, bicos e chupetas.
Dra. Lucia Mello, enfermeira obstetra

Sobre a autora. Dra. Lucia Mello é enfermeira obstetra (Coren-SP 33946), formada pela Unifesp, com mais de 20 anos de experiência e passagens pelo Hospital Albert Einstein e pela Pro Matre Paulista. Atende em domicílio em São Paulo e Grande São Paulo e online para todo o Brasil. Publicado em 23 de setembro de 2026. Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta com o seu médico ou pediatra. Conheça a Dra. Lucia.

Seu bebê só mama com o bico de silicone?

A Dra. Lucia Mello avalia a mamada, vê se o protetor ainda é necessário e monta com você um plano de retirada gradual, em casa (São Paulo e Grande SP) ou online para todo o Brasil.

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